Prompt 2018 #8

julho 09, 2018 0 Comments



Não me olhe assim, você também faria o mesmo no meu lugar.

Começou por acaso. Chamam de home office, eu chamo de retiro temporário. É a profissão do futuro, disseram os orientadores. Tudo é um motivo para ficar em casa engordando, empurrando os serviços com a barriga – que a esta altura parecia uma melancia, empanturrada de Doritos, sorvete e úlceras.

Então veio a primeira vertigem. Parecia uma faca rasgando a parte de trás da cabeça até a testa. Caí para o lado sem chance de defesa e vi uns fragmentos de imagem rompendo a retina. Achei que fosse uma overdose de açúcar. Não liguei, tomei uns analgésicos, coisas para dor e segui em frente. As manchinhas continuavam, umas coisinhas chatas que apareciam no meu campo de visão. Esfregava os olhos com força, lavei com água, fiz massagem. Nada adiantou – as linhas subiam e desciam como uma lâmpada de plasma. Decidi dormir mais cedo e descansar a visão tão maltratada pelas horas no escuro.

O dia seguinte veio junto com as mesmas manchas. Só que agora maiores, um fluxo intenso de borrões e pontos desagregados. Juro por Deus que pareciam caracteres. Dei outra chance para o meu corpo e marquei uma consulta com o oftalmo. Lentes gastas, aumento de grau, enxaqueca. Tudo isso passou pela minha cabeça, enquanto aquele senhor idoso enfiava seus dedos de plástico nas minhas córneas. Tudo certo, meu jovem – disse o médico. Comprimidos duas vezes ao dia.

O diabo é que eu achava aquilo familiar. As linhas subiam e desciam como o efeito Matrix, mas eram escuras, acompanhavam o ritmo dos meus pensamentos e formavam um conceito muito familiar para mim. E eram mesmo. Quando foquei a visão o máximo que podia é que fui notar. Não eram manchas. Eram linhas de código em HTML. <prédio> hospital </prédio> Negrito, concreto, cores. Tudo ali fazia sentido. A realidade parecia mais bonita agora, mesmo sabendo nem como, nem porquê eu consegui essa habilidade. A composição das pessoas, das plantas, dos bichos. Sabia que golfinhos tem mais hyperlinks do que uma mulher de vinte anos?

Segui minha vida mais ou menos normal com isso, sem saber qual a finalidade de aprender uma linguagem que nunca fosse usar. Até brincava com as probabilidades de reorganizar o céu cinzento em um dia que pedia praia ou alterar o fluxo do dinheiro que saía dos caixas eletrônicos. É muita capacidade para uma pessoa só.

E se eu te dissesse que hoje eu consegui? Foi saindo de casa, quando meu Uber achou melhor dispensar a minha corrida do que buscar seu passageiro na plataforma superior do shopping. Meu único pensamento foi que aquele sacana não fizesse mais nenhuma corrida. Sem mais nem menos, ouço um barulho de ferro retorcido e um baque surdo na avenida – um sedan preto se transformou em mil pedacinhos de ferro compacto, como poeira no ar, e o motorista ricochetou pela avenida, mais incrédulo que machucado. Tudo pela força de um pensamento. O meu, claro.

Não sei se foi no primeiro ou no segundo desejo, mas as coisas saíram do controle quando se reprograma algo que já está há milênios em formatação. Se hoje eu plano por entre fluxos matemáticos e barras oblíquas é por uma questão de ganância. O universo se tornou um vazio caótico em busca de organização por minha causa. Se eu fiz, eu dou um jeito. Estou até pensando em formatar uma estrela de quinta grandeza no jQuery.

Leandro Leal

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

0 comentários: