Prompts 2018 #5

julho 04, 2018 0 Comments


Atracamos na Ilha da Caveira às onze da manhã do Pacífico. A muralha de pedra que enchiam as nossas vistas parecia menor nas fotos, a extensão verdejante cobria o topo formando uma imensidão tão bonita quanto misteriosa. Mesmo oculto nas nuvens densas, o sol conseguia extrair o pior das nossas reações.

Dom Henrique desceu da embarcação enxugando a testa, resmungando em um idioma que misturava as fronteiras entre os oceanos. Perguntei se ele precisava de ajuda, mas fui ignorado. Tinha sido o mesmo comportamento durante todo o processo de planejamento da excursão. Talvez por eu ter questionado a baixa oferta na qual ele pretendia me financiar, ou pela minha cor da pele. Ele me odiava por alguma forma, e eu teria de tolerá-lo até a compensação dos cheques. Depois, poderia lhe dar um safanão e, enfim, publicar o meu romance sobre as descobertas a Ilha da Caveira.

A primeira menção sobre a ilha não foi em estudos ou indicações. Ela me surgiu em sonhos, um após o outro. Pode parecer evidência surreal para um pesquisador afirmar, mas é a mais pura verdade. A Ilha da Caveira me foi revelada durante sonos febris em que eu me percebia vislumbrando as pedras, o matagal, as tempestades tropicais e as ondas revoltosas, tal qual estou vendo agora. Meus estudos nos anos seguintes só reforçaram a tese de que era meu destino investigá-la.

Não temos indícios de habitações no local. Descemos nossos equipamentos e bagagens, tomando o cuidado para não fugir um só detalhe importante. Dom Henrique rememorou sobre as lendas, que julgava ridículas em sua mentalidade eurocêntrica. Eu lhe contei com paciência religiosa sobre o antigo Deus de pedra entalhado no fundo da ilha, que um dia despertaria para recuperar sua plenitude. Ele me perguntou “como?”. E mais uma vez eu lhe respondi: “não sei”.

Afinal, o motivo de eu estar aqui era esse. Mas meu financiador não precisava saber disso.

Leandro Leal

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

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