Prompts 2018 #9

julho 10, 2018 0 Comments


“... Tem alguém aí?”. O lado racional do cérebro repete a pergunta, mas o lado que dispara o alerta de pânico implora para que a caverna não responda.

“Tem sim”. A caverna responde.

Todos os dias eu passo pela caverna para chegar à escolinha. É um costume meu. Grito várias coisas para apreciar o barulho do eco, várias mesmo. Grito meu nome, obscenidades, penso no que quero para o dia, minhas frustrações. Minha voz e volta, sai de mim e retorna para o mesmo lugar.

Lembro que em fevereiro eu me sentia sozinha. Tive crises de ansiedade que pregavam minhas pálpebras para cima – passei o Carnaval em claro assistindo as escolas de samba passando na televisão afogando um choro. Quando voltei do recesso, perguntei à caverna se havia alguém do outro lado. Um estouro de pássaros perturbou meus ouvidos, mas por um instante que separa o racional da loucura me fez acreditar que o eco voltou sob a forma de “tem sim”, e não de “tem alguém aí?”.

Ontem eu voltei para a casa com o coração pesando. Olhos inchados, cabeça tonta. Chorar não adiantaria nada. Reclamar para uma caverna também não, mas há o conforto no abstrato.

Saí de casa na carreira e gritei com o peito cheio: “tem alguém aí?”.

Eu queria que tivesse. Só não queria que respondesse.

Ao ouvir a resposta tão clara quanto um sussurro quente junto ao ouvido, repeti a pergunta. E a caverna repetiu a resposta. E repetia a pergunta. E repetiram a resposta. Eu me acostumei com o jogo de bate a volta. Eu me sentia tão cheia de vazio quanto essa caverna, e encontrei no abstrato um conforto macio para o que sentia por dentro.

Demorei para mudar o repertório. “Quem é você?”, “o que está fazendo?”, “de onde veio?”. Sempre me respondendo com uma versão ribombada da minha própria voz. Era conversar com uma versão inesperada de mim.

E todos os dias, a caverna respondia aquilo que queria ouvir. Algumas vezes bruta, selvagem como o ambiente em nossa volta. Noutras parecia retirar do fundo da minha mente a resposta dos meus problemas. Era só a caverna e eu em meio aos matos, galhos, flores e bichos no chão. 

Leandro Leal

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

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